Tuesday, 11 April 2017

Um mau artigo


Em Junho de 2015, foi-me pedida a revisão de um artigo submetido à Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão. Tratava-se de um artigo com inúmeros erros e importantes omissões. Qual não foi o meu espanto ao ver o artigo publicado, sem correcções, no vol. 14, n.º 3, Setembro de 2015, pp. 26-36, da referida revista, assinado por Ana Teresa Tavares e Rita Espanha, com o título «Marketing social: de curto passado a futuro promissor», integrado num estudo de doutoramento da primeira, orientado pela segunda. Para que conste, aqui fica, publicamente, a minha revisão crítica (segundo a grelha da revista) e a minha profunda lamentação pela maneira irresponsável como se editam coisas destas, em Portugal. Quem desejar ler o artigo em causa, encontra-o disponível em http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpbg/v14n3/v14n3a04.pdf .


REVISÃO

PONTOS FORTES

Este artigo não tem, sejamos claros, pontos fortes. Sob a capa de uma acumulação de nomes e referências, não passa de um mero atrevimento de quem não tem qualquer conhecimento sério de ciência e, especificamente, de marketing social, nomeadamente da sua posição em Portugal.

PONTOS FRACOS

O que se espera, em ciência, é a compilação sistemática de todo o conhecimento disponível e o desenvolvimento de processos e conhecimentos que o analisem, reorganizem, disseminem ou, acima de tudo, introduzam mais aperfeiçoados aspectos e perspectivas. Poder-se-ia esperar que este artigo fosse uma review do marketing social, tendente a apresentá-lo em Portugal. Para tal teria de ser, no mínimo, sistemático e rigoroso quanto ao conhecimento produzido nesta área, neste momento. No máximo, teria de introduzir uma nova síntese e avaliação do conjunto desse conhecimento. Não é uma coisa nem outra!

Começa, nomeadamente, pela falta de leitura e estudo de um texto fundador e essencial como o de Wiebe (este autor é assiduamente citado por inúmeros «autores», que querem palrar sobre marketing social, sem nunca o terem sequer lido, o que leva a citações repetidamente erradas; a referência correcta de Wiebe é Wiebe, G. D. (1951- 1952). «Merchandising commodities and citizenship on television». Public Opinion Quarterly, 15 (Winter), pp. 679-691. Os autores deste artigo, como não o leram e muito menos estudaram, chegam a referir-se a ele nestes termos incríveis: «Wiebe em 1952 “Why can´t you sell brotherhood and rational thinking like you sell soap” (Salmon, 1989; Andreasen, 2002; Stead et al, 2007a)»… com esta palhaçada de citar três autores para citar mal e não ter lido o único que deveria ser lido, estudado e referido correctamente: Wiebe.

A partir daqui, tudo não passa de uma «pesca» de referências, claramente desconhecidas das autoras ou não conhecidas com profundidade e ponderação, nos originais e no seu enquadramento devido. Um mero exemplo: na teoria do marketing social, é incontornável, não há ninguém credível que o negue, o desenvolvimento introduzido por Alan Andreasen, especificamente em Andreasen, A. R. (2006). Social Marketing in the 21st Century. Thousand Oaks, CA: Sage (na senda, aliás, de Goldberg, M. E. (1995). «Social marketing: are we fiddling while Rome burns?». Journal of Consumer Psycologhy, 4 (4), pp. 347-370). Trata-se da consideração de um papel alargado (wider role) do marketing social, agregando dois níveis: uma abordagem directa (downstream approach), visando os indivíduos envolvidos em comportamentos a melhorar; e uma abordagem envolvente (upstream approach), dirigida a factores estruturais e sociais, dependente dos respectivos decisores. Foi este desenvolvimento conceptual que reforçou a necessidade, no âmbito nomeadamente das políticas públicas, de enquadramentos contextuais e nacionais das acções de marketing social, tendo em vista a consistência e eficácia das suas intervenções pontuais. Pois bem, nesta pretensão de paper não há absolutamente nenhuma referência a esta referência fundamental.

Por outro lado, Portugal não se encontra, de modo nenhum, numa fase de «apresentação» do marketing social, que este proposto paper quer fazer supor. Aquela disciplina já é leccionada aqui, pelo menos, desde 1992; tem autores formados em prestigiadas escolas estrangeiras (University of South Florida, University of Stirling, University of Manchester, entre outras); tem fundadores de organizações internacionais (European Social Marketing Association), tem personalidades que já exerceram importantes funções internacionais (Paulo K. Moreira, director adjunto da unidade de Health Communication do European Centre for Disease Prevention and Control, ECDC); tem diversas teses sérias apresentadas em universidades portuguesas; tem publicações que merecem atenção e respeito – que o autor desconhece ou não refere; tem pessoas que participam assiduamente em importantes conferências internacionais, uma delas, aliás, realizou-se em Lisboa, a 1st European Social Marketing Conference, em 2012, com a presença de destacadas referências internacionais, como Jeff French – que veio, aliás, ao ISCTE-IUL, em 2011, para um curso e conferência – ou Gerard Hastings. Assim sendo, querer surgir, no nosso país, como «apresentadoras» do marketing social, agora, como as autoras o fazem, é, no mínimo, ridículo.

Em suma, este artigo é uma maneira de querer aparecer na ciência, que deve ser repudiada pelos cientistas e substituída, a admitir que isso é possível, pelo estudo profundo, sistemático, demorado, participado, com humildade e grande sentido autocrítico, sem exibicionismos e pressas. Pessoas como as autoras desta pretensão de paper científico devem ser bem orientadas naqueles sentidos e uma instituição universitária como o ISCTE-IUL e a sua Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão não devem acolher nem permitir coisas como esta.

O estilo mediático de pensamento que domina a actualidade, feito de simplismo, ignorância intencional, exibicionismo, imediatismo, palavreado e irresponsabilidade, onde títulos de doutor e professor já pululam impunemente, deve ser totalmente rejeitado pela ciência e pelas publicações científicas.



SUGESTÕES PARA MELHORIA

Tal como está, esta pretensão de paper científico não tem, na verdade, hipótese de melhoria, já que exige a completa reformulação dos seus fundamentos, processos e objectivos.



QUANTO AO TÍTULO

A afirmação do título não tem fundamento (o marketing social foi enunciado formalmente em 1971, tem ampla implantação pelo mundo, revistas científicas próprias, enormes congressos e conferências, tem várias associações nacionais e internacionais, tem importante aplicação em intervenções e instituições sociais). Considerar isto, no âmbito do marketing – que, já de si, tem, apenas, pouco mais de cem anos –, «uma área de curto passado», não é correcto. O marketing social, tal como outras áreas do marketing, que foram nascendo na segunda metade do séc. XX, tem já uma existência sólida e um considerável capital crítico, dispensando quem o venha, com ar de «descobridor da pólvora», dar como «de curto passado», sobretudo quando se trata de alguém que nunca o acompanhou com profundidade.

Por outro lado, quanto ao «futuro promissor», para sustentar essa declaração o autor teria de aplicar correctamente métodos de prospectiva ou conexos (trendwatching, foresight, future studies, delphi, etc), para demonstrar essa afirmação. De outro modo, é melhor ficarmo-nos pela astrologia da Maia.



QUANTO AO RESUMO (demonstrar as principais partes do artigo – objectivo, problema, aspectos teóricos, metodologia e resultados –, objectividade, consistência e clareza)

Nada disso ele possui. Apenas uma definição «confusionista» de marketing social, uma afirmação de review, que já se viu o que é (não é!), e uma conclusão, que já se viu com que fundamento: nenhum.



QUANTO AO CONTEÚDO (argumento, desenvolvimento, metodologia, conclusão, etc.)

Para além do que já foi dito, é gritante a ausência de uma abordagem explícita da metodologia usada. Uma review é um importante processo de estudo e implica que um autor deixe claros os seus critérios e como os processou.

Para saber abordar uma review, recomendo uma abordagem básica (mas inteligente) da Trent University, que também recomendo, aliás, aos meus alunos de graus bem mais baixos do que o doutoramento (disponível em https://www.trentu.ca/academicskills/documents/ASC_Writing_Academic_Reviews_Final.pdf).



QUANTO À FORMA (estrutura, linguagem, legibilidade, etc.)

Uma sucessão de referências, más cópias e afirmações dadas como evidências, mas sem qualquer consciência séria do que se está a dizer. Um exemplo: cita-se Dann, 2010 (já agora conviria saber em que página, o que efectivamente ele diz e como o sustenta), para dizer que houve «quarenta e cinco definições académicas revistas por pares em quarenta anos de atividade da disciplina», pretendendo-se fazer erudição sobre o assunto. Esperar-se-ia, contudo, que um paper escrito em 2015 apreciasse as reflexões de definição feitas até hoje. Mas sobre isso nada, nomeadamente os importantes contributos dados por Nancy Lee et al. [ver Lee, N. R., Rothschild, M. L. & Smith, W. (2011). «A declaration of social marketing’s unique principles and distinctions». Leaflet published by the authors] ou em Gerard Hastings et al. [ver Hastings, G., Angus, K. & Bryant, C. (eds) (2011). The Sage Handbook of Social Marketing. London: Sage Publications], até muitos outros autores importantes, desde 2010, incluindo os recentes e importantes volumes editados por David W. Stewart [ver Stewart, D. W. (ed) (2014). Persuasion and Social Marketing. Santa Barbara, CA: Praeger], bem como o importante ECDC Technical Document [ver European Centre for Disease Prevention and Control (2014). Social marketing guide for public health managers and practitioners. Stockholm: ECDC – é incrível alguém que está a estudar «O envolvimento dos portugueses com temas de saúde pública: um contributo para as estratégias de marketing social e comunicação de assuntos públicos» (nome da tese em causa) e não conhecer este documento!!! Mas que doutoramentos são estes???] ou a mais recente abordagem de Jeff French e Ross Gordon [French, J. & Gordon, R. (2015). Strategic Social Marketing. London: Sage Publications]


COMENTÁRIOS ADICIONAIS PARA AS AUTORAS

Coisas de base. Estudar com muita seriedade. Ser sistemático, ser crítico, sobretudo de si próprio. Ser exigente. Aconselhar-se com cientistas sérios e provados. Frequentar fóruns com pessoas relevantes para esta área, que pretendem estudar. Quando entenderem que podem dar um contributo, devem focar-se num campo e numa óptica específica, onde possam experimentar, aprofundar e analisar cuidadosamente, por forma a produzirem um contributo efectivo, original e progressivo.

Se, por acaso, as autoras, para mal dos nossos pecados, já leccionam, então recomendo-lhes repensarem profundamente a sua atitude na vida e reflectirem bem no «crime» que é passar barbaridades, como as que têm nesta sua pretensão de paper, para pobres alunos. Se, também por acaso, as autoras foram orientadas por alguém para escrever esta pretensão de paper, então os mesmos conselhos se devem destinar a tal pessoa ou pessoas.

Diz-se, aliás, no texto, que se trata de algo feito «num curso de doutoramento». Nestes casos, sobretudo, é recomendável que se ponham os alunos a estudar a sério, com profundidade, com rigor, com tempo e que, quando se abalançarem a escrever algo, que o façam em âmbitos bem definidos, em proporções sensatas, em processos de acumulação razoável de conhecimento. Querer passar logo a um autor científico, publicado numa revista acreditada, sem estudar nem saber citar um autor fundador da área estudada, é uma clara insensatez, que descamba em óbvia desonestidade intelectual.


RECOMENDAÇÃO FINAL
Não publicar o artigo.

Monday, 30 January 2017

Reasons why Social Marketing can be a good contribution for public health in Bihar


1.     A new concept of health

In 1948, even before the creation of the World Health Organization (WHO), at the International Health Conference (New York, 1946), it was defined that «health is a state of complete physical, mental and social wellbeing and not merely the absence of disease or infirmity» (WHO, 1946, p. 100). This represents an important change from a pathogenic concept which means a health limited to the biomedical field , to a holistic concept that incorporates human sciences in that field where only medicine wanted to rule. Health should be considered in its socio-economical dimensions, involving the individuals, the environmental factors and the social conditions to preserve them. For their part, public servers and citizens must have an active position in the adoption of behaviours that can fight, control or prevent infirmity.

2.     The role of social marketing in behavior change
At least, since 1971 (see Kotler & Zaltman), applying marketing concepts and tools to improve social behaviour was established as an important contribution to that holistic concept of health. Organizations like WHO, FAO or the World Bank, and countries like Canada, New Zealand, USA or Great Britain have adopted a wider policy on social marketing in the public health sector. On a downstream level (see Andreasen, 2006), social marketing interventions have spread across the world, including India, and they were submitted to several evaluation studies (see Gordon et al., 2006; Helmig & Thaler, 2010), ensuring evidence that social marketing can be a good and efficient contribution. Approaches and tools like proper research, a citizen-centric focus, strategic goals definition, segmentation, targeting, positioning, branding, product, services or events conception, pricing, distribution, integrated communication, or evaluation are important contributions to health behaviour change interventions.

3.     A policy on social marketing in public health
Since 2004, the British experience of a national policy on social marketing in public health presents itself as a very good guide, involving numerous health behaviour change interventions with proofed results. All the concepts, processes, institutions, and steps of that British policy can provide a good contribution for other countries, according to proper knowledge, good policy transfer and proper implementation.

4.     My contribution
During my life experience on social marketing, I have followed and studied systematically that British policy (see Santos, 2016) and social marketing for public health, and I am sure that I can provide a useful contribution to your Think Thank, introducing knowledge and advices, providing learning and training, promoting and participating in specific research, informing policy and health systems design, and supporting evaluation processes, always according to your needs and goals.

References
Andreasen, A. R. (2006). Social Marketing in the 21st Century. Thousand Oaks, CA: Sage.
Gordon, R., McDermott, L., Stead, M. & Angus, K. (2006). «The effectiveness of social marketing interventions for health improvement: what’s the evidence?». Public Health, 120 (12), pp. 1133-1139.
Helmig, B. & Thaler, J. (2010). «On the effectiveness of social marketing: what do we really know?». Journal of Nonprofit & Public Sector Marketing, 22 (4) , pp. 264-287.
Kotler, P. & Zaltman, G. (1971). «Social marketing: an approach to planned social change». Journal of Marketing, 35 (July), pp. 3-12.
WHO, World Health Organization (1946). «Preamble to the Constitution of the World Health Organization as adopted by the International Health Conference». New York: Official Records of the World Health Organization, nº 2.
Santos, C. O. (2016). Social Marketing in a Country: The British Experience. Charleston, SC: CreateSpace.

Thursday, 5 January 2017

New paper about the reference frame approach



In the recent special issue of Janus, the jornal of Observare Research Center, about Global Communication, it was published my new paper about the reference frame approach and international communication strategies

Wednesday, 7 December 2016

Conference New Dimensions of Social Marketing








6 December 2016, at ISCTE-IUL, Lisbon, Portugal, we have made the conference New Dimensions of Social Marketing with Stephan Dahl. One hundred and twenty participants, including Professor Luís Reto, ISCTE-IUL Dean,  have listen the Stephan’s talk about a healthy habits campaigns for oil company’s workers, using apps, the gamification concept and a 7S of Social Media persuasion approach, based on:
-                     Simplify
-                     Sign-post
-                     Self –relevant
-                     Self-supervise
-                     Support
-                     Suggest
-                     Socialise
And I have presented my book. It was quite a good session. Thank you all.

Thursday, 1 December 2016

Tuesday, 29 November 2016

On the ISCTE-IUL website


O ISCTE-IUL promove a Conferência Novas Dimensões do Marketing Social, dia 6 de dezembro, às 18h30, no Auditório J.J. Laginha.

Introdução:
Luís Reto, Reitor do ISCTE-IUL

Intervenções de:
Stephan Dahl, Social Marketing and Social Media
Carlos Oliveira Santos, Uma Política Nacional de Social Marketing
Apresentação do Livro: "Social Marketing in a Country. The British Experience."

Stephan Dahl
É uma referência internacional do marketing social. Professor da University of Hull e da James Cook University. A sua obra inclui Social Marketing (Pearson, 2013, co-autor), Diversity Marketing (Thomson, 2002), Marketing Communications (Routledge, 2014, co-autor), Social Media Marketing (Sage, 2014), e Marketing Ethics & Society (Sage, 2015, coautor).

Carlos Oliveira Santos
É Professor Auxiliar do Departamento de Artes, Humanidades e Ciências Sociais da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e professor convidado do IPPS (ISCTE-IUL). Doutorado em Ciência Política (Políticas Públicas) pela Universidade Nova de Lisboa. Em 1992, iniciou, em Portugal, o estudo e o ensino do marketing social e criou o website Marketing Social Portugal (www.marketing socialportugal. net). É coordenador e co-autor de Melhorar a Vida, Um Guia de Marketing Social (Fundação Cebi, 2004), o primeiro livro dessa área em língua portuguesa, e publicou recentemente Social Marketing in a Country, The British Experience (CreateSpace, 2016).

http://www.iscte-iul.pt/home/noticias.aspx?NewsID=a0bca60c-c1f6-46b5-83cb-4fbed3d328a7


Wednesday, 23 November 2016

Lisbon Conference about new dimensions of social marketing

December 6, at ISCTE-IUL, Avenue Forças Armadas, Lisbon, Portugal, it will be the conference «New Dimensions of Social Marketing», with Stephan Dahl and Carlos Oliveira Santos.

Stephan Dahl is an authority in social marketing and diversity marketing. He is senior lecturer at the University of Hull and adjunct associate professor at James Cook University. He is author of Social Media Marketing (Sage, 2014) and Diversity Marketing (Thomson, 2002), and co-author of Social Marketing (Pearson, 2013), Marketing Communications (Routledge, 2014), and Marketing Ethics & Society (Sage, 2015). Stephan will talk about «What's App: social marketing in the social media sphere».
Carlos Oliveira Santos is assistant professor at University of Lisbon, and invited professor at IPPS (ISCTE-IUL). PhD in Political Science (Public Policy) by New University of Lisbon. Since 1992, he has pioneered the study and teaching of social marketing in Portugal and has created the website Marketing Social Portugal (www.marketingsocialportugal.net). His publications include Melhorar a Vida, Um Guia de Marketing Social (Fundação Cebi, 2004), the first social marketing textbook in Portuguese, and the recent Social Marketing in a Country, The British Experience (CreateSpace, 2016). Carlos will talk about this book.


http://www.iscte-iul.pt/home/noticias.aspx?NewsID=a0bca60c-c1f6-46b5-83cb-4fbed3d328a7